sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Um pouco de verso...
Cinza
Abro os olhos
É fim de tarde
Tenho sete anos
Tenho uma moeda nas mãos
Tenho uma bicicleta
Tenho os pés no chão
E nenhum chinelo neles.
É fim de tarde
Estou perto de casa
Vejo o chão de terra batida
As calçadas gramadas
Nenhum asfalto
Só a pavimentação comum à natureza.
É fim de tarde
Ouço a voz da minha mãe a me chamar
Isso me faz sorrir
Então ouço a voz do meu pai a m chamar
E isso me faz chorar de felicidade
Corro pra casa
Um som toma conta do mundo
E eu avisto a minha rua
Aquela paisagem cinza em meio ao céu avermelhado
Ainda estou correndo
O som fica mais alto
Meus ouvidos doem
Vejo a minha casa
Estou correndo, mas o mundo parece imóvel
Aquele som tornou-se ensurdecedor
Ponho as mãos nos ouvidos
Em vão
Vejo o portão de casa
Aquele maldito barulho parece me arrancar a carne e os ossos
Abro os olhos.
Estou na minha cama
Estou muito longe de casa
Tenho vinte e sete anos
Desligo o maldito celular que estava tocando
A claridade é demais pra mim
Ainda tenho aquela moeda...
Em cima da cama
Livros, sapos de pelúcia, almofadas, meu computador, meu celular, uma manta
E eu
Não sei onde começa ou termina quaisquer dessas coisas
A claridade do quarto ainda é demais pra mim...
Penso que tenho que me levantar
O sacrifício é tamanho que pareço me parir sozinha da cama
Meus pés encostam no chão
Nenhum chinelo neles
Me lembro do sonho
Esboço um sorriso
E só.
Vou cambaleando até o chuveiro
Penso em que roupa usar
Que perfume
Em pentear os cabelos emaranhados como de costume
Penso que levantei, mas algo continuou na cama
Tenho que acordar.
O chuveiro é aberto
Cada gota que me toca a pele é como uma agulha
Mesmo a água estando assim tão quente
Em seguida, meu corpo todo relaxa
Meus músculos parecem desgrudar de mim
Minha cabeça ainda roda, mais agora
Os olhos se fecham
E por mais que a descrição seja interessante
A sensação é terrível.
Termino o banho bem rápido
Antes que caia e quebre o pescoço
Conheço a minha sorte...
Arrumo o que tenho que arrumar
Ponho tudo no devido lugar
Pego tudo o que preciso
Sinto o peso da mochila
Está tudo aqui
Só me falta o que perdi de mim
Mas isso eu nunca consegui achar...
Caminho pela rua
Espero meu ônibus
Ao entrar nele, tantos rostos
A maioria deles parece comigo
Todos esses rostos abortados de suas camas
Todos eles pálidos, inertes
Me junto a essa figuração da vida
Percebo cada detalhe da paisagem que passa
Já a vi mil vezes
Hoje ela é cinza, chuvosa
Das mais bonitas, pra mim
E não deixo de notar cada traço de beleza
E não deixo de notar cada traço de tristeza
Ponho os fones de ouvido e invento a trilha sonora dessa manhã.
Ainda me sinto em torpor
Não consigo entender essa tristeza persistente
Talvez seja a chuva fina
Parece que o céu está chorando algo escondido
E só a terra molhada percebe isso
Eu também percebo
E também deixo cair uma lágrima escondida
Ninguém a percebe
Nem o céu
Nem a terra
Ninguém.
E quando chego ao meu destino
Não consigo parar de pensar:
Preciso escrever isso
Preciso lembrar!
E lembro
Lembro que estou longe de casa
Não tenho mais sete anos
Não escuto a voz de minha mãe a algum tempo
Não escuto a voz do meu pai a muito tempo
Mas ainda tenho aquela moeda
E ainda gosto de ter os pés no chão
Esboço um sorriso
E só.
- Karina "Winna" Ashara
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Winna: "- Com tantos elogios eu fico até sem graça!"
"Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma". - Pitágoras

Um comentário:
isso é a arte: conseguir transformar a dura realidade em sonora, doce e bela poesia!
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