Foram vinte e quatro anos de vergonha, mas não uma “VERGONHA” social ou moral, mas sim pessoal: Nunca tinha ido a um teatro. (Não joguem pedras!)
Já ajudei a compor cenários, já ajudei amigos no ensaio das falas, já li livros que inspiraram peças... mas nunca tive o prazer de ir a um teatro. Falha minha.
Mas HOJE, graças ao meu bom Deus e a minha irmã, que me arrancou de meu estado deprê devido uma noite não dormida graças a tosse que me assola (espero que não seja a gripe suína – toc toc toc na madeira!).
Depois de devidamente arrancada da cama e vestindo meu modelinho “Mônica’s red dress” fomos deixar meu sobrinho com a vovó dele e partimos em rumo ao Teatro SESI. Quando cheguei lá me dei conta de que não sabia NADA sobre a peça e nem mesmo quais atores estariam lá – mesmo que soubesse não ia fazer diferença, nunca fui ligada a nomes, muito menos de atores, apenas alguns poucos vagam na minha memória.
Ah sim! Antes que me sacaneiem, eu também não sabia que a peça se tratava de um monólogo...
Continuando: Entrei, tomei um capuccino para acalmar minha garganta e fui sentar-me com meus amigos. Logo a peça começou e junto dela uma das melhores experiências da minha vida! Eu pude presenciar um deslumbrante trabalho de uma linda mulher e inexplicável atriz, cujo nome eu só descobri no final: Elisa Lucinda.
Ao decorrer da peça – que eu não vou contar nenhum pedacinho porque quero muito que TODOS VOCÊS a assistam – eu pude viver da comédia mais hilariante ao drama mais choroso, e com quase nenhum intervalo entre um e outro. A sensação é simplesmente indescritível!
Depois de 2 horas e aproximadamente 50 minutos, estava Eu lá, de pé, aplaudindo alucinadamente e com o rosto cheio de lágrimas querendo uma espécie de “bis”. Ninguém nunca vai compreender o que essa “desvirgindade teatral” significou para esta que vos escreve.
Como deixei escrito num dos livros de visitas que estavam disponíveis na saída, “Esta foi a primeira vez em minha vida que eu venho a um teatro, e graças a você, não será a última!”
Eu tenho muito o que agradecer a Elisa Lucinda.
Obs.: Nunca mais chamarei meus cachinhos de “Cabelo ruim!”
Aqui segue o Poema que ela recita na abertura da peça:
Parem de falar mal da rotina
De Elisa Lucinda (29 de outubro de 1997)
Parem de falar mal da rotina
parem com essa sina anunciada
de que tudo vai mal porque se repete.
Mentira. Bi-mentira:
não vai mal porque repete.
Parece, mas não repete
não pode repetir
É impossível!
O ser é outro
o dia é outro
a hora é outra
e ninguém é tão exato.
Nem em filme.
Pensando firme
nunca ouvi ninguém falar mal de determinadas rotinas:
chuvinha, dia azul, crepúsculo, primavera, lua cheia, céu estrelado, barulho do mar
O que que há?
Parem de falar mal da rotina!
beijo na boca
mão nos peitinhos
água na sede
flor no jardim
colo de mãe
namoro
vaidades de banho e batom
vaidades de terno e gravata
vaidades de jeans e camiseta
pecados, paixões, punhetas
livros, cinemas, gavetas
são nossos óbvios de estimação
e ninguém pra eles fala não
abraço, pau, buceta, inverno,
carinho, sal caneta e quero
são nossas repetições sublimes
e não oprime o que é belo
e não oprime o que aquela hora chama de bom
na nossa peça
na nossa trama
na nossa ordem dramática
nosso tempo então é quando
nossa circunstância é nossa conjugação
Então vamos à lição:
gente-sujeito
vida-predicado
eis a minha oração.
Subordinadas aditivas ou adversativas
aproximem-se!
é verão
é tesão!
O enredo
a gente sempre todo dia tece
o destino aí acontece:
o bem e o mal
tudo depende de mim
sujeito determinado da oração principal.

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